chá

interiors. ideas. emotions. life.

Category: Poesia

ser mãe em portugal

é verificar no talão da farmácia que todos os produtos adquiridos para o seu recém nascido pagam vinte e três por cento de iva

๏̯̃๏

que sou livre, dizem-me.
porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
o meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.

- ana pérez cañamares (tradução trapézio sem rede)

dorme, menina, dorme

e o amor é uma asa
esvoaçando sobre nós
a polvilhar de ternura
os timbres da nossa voz

- josé jorge letria
30.05.2012
30.05.2012
30.05.2012

three

A pregnant woman
lies at night by her man.
In her belly
a child moved.
“Put your hand on my belly,”
says the woman.
“What moved so lightly
is a tiny hand or leg
of our child.
It will be mine and yours
though only I have to bear it,”

The man nestles close to her,
they both feel the same.
In the woman a child moves.

And the three bodies pool their warmth
at night, when a pregnant woman
lies by her man.

- anna swir

don’t

don’t be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don’t be dull and boring and
pretentious, don’t be consumed with self-love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don’t add to that.
don’t do it.

- charles bukowski

da sabedoria de não versejar sem antes ter experienciado

“Ah, os poemas são tão pouca coisa quando os escrevemos cedo. Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida e esta ser tão longa quanto possível, e então mesmo no fim dela, talvez se pudesse escrever dez linhas que fossem boas. Pois os versos não são sentimentos (esses têm-se cedo que baste), – são experiências.”

- rainer maria rilke in os cadernos de malte laurids brigge

da importância das pequenas coisas. ainda.

viver é para aprender
a pousar a cabeça
sobre o ventre de uma mulher

e para saber segurar
na mão entre-aberta
um seixo que se encontra
no caminho.

- eugène guillevic (tradução livre)

dorothy & aurore

Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.

- dorothy parker

melhor, só as tentativas de suicídio (falhadas) de aurore em delicatessen.

 

curvas

[...] A mí me gustan las personas curvas,
las ideas curvas,
los caminos curvos,
porque el mundo es curvo
y la tierra es curva
y el movimiento es curvo;
y me gustan las curvas
y los pechos curvos
y los culos curvos,
los sentimientos curvos;
la ebriedad: es curva;
las palabras curvas:
el amor es curvo;
¡el vientre es curvo!;
lo diverso es curvo.
A mí me gustan los mundos curvos;
el mar es curvo,
la risa es curva,
la alegría es curva,
el dolor es curvo;
las uvas: curvas;
las naranjas: curvas;
los labios: curvos;
y los sueños; curvos; [...]
Y no me gustan las personas rectas,
el mundo recto,
las ideas rectas; [...]
no me gustan las leyes porque son rectas,
no me gustan las cosas rectas;
los suspiros: curvos;
los besos: curvos;
las caricias: curvas. [...]
Vivir es curvo,
la poesía es curva,
el corazón es curvo.
A mí me gustan las personas curvas
y huyo, es la peste, de las personas rectas.

- jesús lizano

o guardador de rebanhos

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

- fernando pessoa, 1914

fotografia: pedro martins. mais imagens aqui.

poema para sair de um ano e entrar no outro

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenes
Todas as buzinas
Todos os reco-reco tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA

- mário quintana

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