da minha ignorância
desconhecia que, no terceiro trimestre, algumas grávidas desenvolvem uma espécie de tendinite para lhes massacrar o pulso e o polegar.
desconhecia, mas o meu corpo fez o favor de me informar.
desconhecia que, no terceiro trimestre, algumas grávidas desenvolvem uma espécie de tendinite para lhes massacrar o pulso e o polegar.
desconhecia, mas o meu corpo fez o favor de me informar.
Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.
- dorothy parker
melhor, só as tentativas de suicídio (falhadas) de aurore em delicatessen.

“The fat ass, the farting, it’s ridiculous! I am unfuckable!!”
- miranda em estado avançado de gravidez, “o sexo e a cidade” temporada 4
As puristas da gravidez encantada que me perdoem mas foi das coisas mais brilhantes que ouvi recentemente. E acrescento: pés ridiculamente inchados, pernas que parecem troncos, azia continuada, caminhar de pato e destreza de elefante. Privilégios da maternidade. Uma maravilha.

um dia percebes que o tempo passou e nem sequer tentaste. por um instante celebras as dificuldades a que te poupaste. mas sabes que apenas lamentas o que não viveste: o fruto que não chegaste a provar, o arrepio que não chegaste a sentir. recordas vagamente o frémito que quase te percorreu o corpo mas travaste, somente por cobardia.
vazia, até de ti, observas a paisagem. ali está a árvore que não encobriu os vossos beijos. a pedra que não ocultou o vosso segredo. a erva alta que não cedeu sob o vosso peso, os vossos abraços e o vosso riso. o riacho que não percorreu os vossos corpos enquanto se amavam. congratulas-te por ter seguido os cânones mas continuas sem saber como teria sido. o sussurro. a pele. a vertigem. o amor.
então acordas e realizas que ainda há tempo. reúnes as forças que tens e as que desconhecias ter, abeiras-te desse abismo chamado incerteza, abres os braços e deixas-te cair. mergulhas numa viagem alucinante até esse universo paralelo em que tudo o que devia ter acontecido, aconteceu. finalmente, descobres a vida que devias ter estado a viver e entras nela. nesse momento, sabes que chegaste a casa.
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa…
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!
- david mourão-ferreira
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Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois de um vento me ter feito frente
Navego com todos os ventos.
- friedrich nietzsche
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Em ti há um marinheiro demandando uma ilha onde ninguém ainda esteve.
Também em ti encontrarás o mapa, a bússola e o navio.
- arménio vieira
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atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa me levar.
- pablo neruda
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Que nem o vento passe onde tu passas.
- sophia de mello breyner andresen
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Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar.
- jorge palma
“Eu acreditava, quando era «só» leitor, que os escritores porque escreviam livros onde se encontrava a verdade, porque descreviam o mundo, porque perscrutavam o coração humano, porque captavam tanto o particular como o geral e eram capazes de os recriar a ambos de forma livre mas estruturada, porque compreendiam, deviam ser por isso mais sensíveis – e menos vaidosos, menos egoístas – do que as outras pessoas. Depois, tornei-me escritor, comecei a encontrar outros escritores, observei-os e concluí que a única diferença entre eles e as outras pessoas, a única coisa em que eram melhores, é que eram melhores escritores. Podiam ser de facto sensíveis, perspicazes, sábios, saber generalizar e particularizar – mas só sentados à secretária e nos seus livros. Quando se aventuram no mundo, geralmente comportam-se como se tivessem deixado toda a compreensão do comportamento humano nos seus originais dactilografados.”
- julian barnes
Isto é para dizer
Que eu sei
Que gostarias de andar pelos bosques,
A viver uma vida de poeta,
Em vez de estares aqui a uma mesa de fórmica
Num debate sobre as evidentes particularidades das vantagens
e compensações oferecidas aos funcionários desta faculdade,
Também eu gostava que andasses pelos bosques
Porque, acredita, não tem piada nenhuma ter um poeta frustrado
No Departamento de Recursos Humanos.
Nos poemas que escreveste que eu li transparece sempre a ideia
de seres inteligente e decente e paciente de um modo
Nada evidente para nós neste serviço,
E assim, sabendo como os poetas são capazes de fazer de um problema
uma festa,
De cultivar flores numa cama de bebedeiras, divórcio e desespero,
Dou-te este cheque relativo a duas semanas de ordenado
E peço-te que esvazies hoje a tua secretária
E que vás para casa
E escrevas um poema
Com um sapo verdadeiro
E ameixas no frigorífico
Tão doces e tão frescas.
- r. j. ellmann

nos bastidores de “me”, o primeiro projecto fotográfico dele.
autobiográfico. introspectivo. catártico. aqui.
“Confront the dark parts of yourself, and work to banish them with illumination and forgiveness. Your willingness to wrestle with your demons will cause your angels to sing. Use the pain as fuel, as a reminder of your strength.”
- August Wilson
«A arte, mesmo a de maior alcance e mais ampla visão, nunca nos mostra o mundo exterior. Tudo o que nos mostra é a nossa própria alma, o único mundo que realmente conhecemos. E a alma em si, a alma de cada um, é para nós próprios um mistério. Esconde-se na obscuridade, a meditar, e a consciência não é capaz de nos revelar os seus planos. A consciência, na verdade, é bastante desadequada para explicar o conteúdo da personalidade. É a arte, e apenas a arte que nos revela a nós própios.
Sentamo-nos para ver uma peça com a mulher que amamos, ou ouvimos música num jardim de Oxford, ou passeamos com um amigo pelas frescas galerias da casa do Papa em Roma, e de repente tomamos consciência de que temos paixões com que nunca sonháramos, pensamentos que nos amedrontam, prazeres cujo segredo nos foi negado, penas que foram escondidas das nossas lágrimas. O actor não tem consciência da nossa presença; o músico está concentrado na subtileza da fuga, no timbre do seu instrumento; os deuses de mármore que nos sorriem são feitos de pedra insensível. Mas deram forma e matéria ao que estava dentro de nós; permitiram-nos compreender a nossa personalidade; e um sentimento de agradável risco, ou um toque de adrenalina ou dor, ou aquela auto-comiseração que os homens sentem tão frequentemente, invade-nos e modifica-nos. »
- oscar wilde, in o retrato do sr. w. h.

[imagens: todd mclellan, série disassembly]