chá

interiors. ideas. emotions. life.

Month: July, 2010

nem tudo começa com um beijo

“Uma história intensa e com um grande ensinamento de vida, prende, sem grande dificuldade, desde a primeira até à última página. O amor na sua forma mais primária e pura aliado a um grande exemplo de verdadeira amizade e companheirismo. Tudo bons pretextos para perder um par de horas e “saborear” a prosa genial de Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira” – Joana Carvalho, O Comércio do Porto, 12 de Junho de 2005

« (…)

– Vamos falar de coisas mais agradáveis  – decidiu.

E falaram. Durante toda a noite, a manhã do dia seguinte e boa parte da tarde. As palavras derrapavam no céu da boca, tanta era a pressa de serem ditas, falaram de tudo e de mais alguma coisa, tinham um mundo de conversa para pôr em dia, muitos segredos para partilhar.

– Que horas são? – Perguntou Nuvem Maria a um dado momento.

– Não sei, não tenho relógio – respondeu Fio Maravilha.

– Mas já deve ser tarde – acrescentou enquanto mirava as estrelas que dançavam no céu.

Os velhos que jogavam às cartas tinham regressado a casa, os casais de namorados anichavam-se no escuro, o sol há muito que tinha morrido no horizonte, as luzes da cidade começavam a acender-se.

– Amanhã, a gente vê-se? – Implorou Nuvem Maria.

– Espero que sim.

– Então está combinado?

– Está combinado.

(…)

– Gostava tanto de andar num submarino.

– Bom, isso não te posso dar. Mas tenho uma surpresa para ti.

– Que surpresa?

– É uma coisa doce.

– Vá lá, não me faças sofrer. Diz o que é.

– Gostas de chocolates?

– Não sei. Nunca provei.

Nuvem Maria abriu o saco e retirou uma caixa cheia de chocolates. Ele tirou um, gostou, tirou outro, gostou ainda mais, e os dois ficaram a contemplar o mar, a devorar chocolates. Pele contra pele, coração contra coração. Falaram de tudo e de nada, da chuva e do bom tempo, da noite e do dia, da Cave e do Sótão, das coisas más, mas sobretudo, das boas.

– Já tenho saudades tuas – confessou Fio Maravilha.

– Como assim? Estou aqui colada a ti!

– Tenho saudades do dia em que não estiveres perto de mim.

– Mas isso nunca vai acontecer.

Por breves instantes, ficaram a olhar um para o outro. Depois ela aproximou-se ainda mais, o seu perfume cheirava a lavanda, soltou a sua farta cabeleira loura, Fio Maravilha era capaz de jurar que cada fio do seu cabelo era uma filigrana de ouro, colou os lábios aos seus ouvidos. Antes que ele dissesse alguma coisa, ela colocou-lhe a palma da mão sobre a boca. Depois beijou-o com os olhos, a língua, sobretudo com o coração. Foi um beijo prolongado, de cortar a respiração. Um beijo sentido, muito aguardado. Sabia a pastilha elástica.

– Podia ficar a noite toda assim – confidenciou Nuvem Maria.

– A vida toda – respondeu Fio Maravilha

Este livro está na minha estante há vários anos. Comprei-o porque gostei das ilustrações mas nunca cheguei a lê-lo. Hoje peguei-lhe e fiquei deliciada. Uma escrita doce, delicada, simples e fresca. Como o primeiro amor deve ser.


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exercício semanal

« (…)

– Quer jogar?

– Não, eu não jogo.

– É uma pena. Tencionava apostar o meu restaurante contra o seu carro. Se perdesse esperava pelo fim das chuvas, atravessava o rio a pé, e seguia viagem. Se ganhasse pegava no carro e voltava para trás, para a vida que deixei…

Eu não queria voltar para trás. Não queria regressar à vida que havia deixado. Hesitei um instante e depois disse-lhe que sim, que estava disposto a jogar, que aceitava a aposta. Os olhos dele brilharam. Tirou do bolso das calças um par de dados muito gastos. Reparei que lhe tremiam os dedos, e que tinha as unhas manchadas de nicotina. Venceu-me sem dificuldade. Entreguei-lhe as chaves do carro e pedi um café. Sentia-me de repente muito cansado.

– Então é isto o fim?

– Não – respondeu-me Máximo sem perder o sorriso. – Não há fim. O que há são intervalos. »

in “Passageiros em Trânsito, Novos contos para viajar”, José Eduardo Agualusa

NÃO HÁ FIM. O QUE HÁ SÃO INTERVALOS.

(Desta vez, o exercício de reflexão, cada um fará o seu.)

gestão de tempo

Um destes dias fui tratar de um assunto e dei de caras com uma fila considerável de gente, não muito bem disposta. Tinha tempo, estava longe de casa o bastante para não poder usá-lo de forma particularmente útil e conhecia um parque de merendas a 1 minuto de carro dali.

Parei numa pequena mercearia para comprar laranjas e chegada ao parque, tirei as sandálias e instalei-me na relva, com o livro que estou quase a acabar.

Havia por ali imensas famílias grandes, a aproveitar a tarde. Estavam longe o suficiente  para não as ouvir, mas conseguia sentir o ambiente descontraído, de férias. Acho que me contagiou.

Fiz o meu mini-piquenique e li um bocadinho. Estive ali  pouco mais de meia hora, mas saí de lá outra. Como se ali tivesse passado o dia inteiro. E obviamente bastante menos irritada do que se tivesse insistido em ficar na fila.

Depois, arrumei as coisas, dei uma pequena caminhada pelas redondezas e regressei ao meu assunto.

A fila tinha-se diluído. As pessoas mal-dispostas tinham ido embora. Tratei de tudo rapidamente e regressei a casa. Feliz da vida.

Às vezes consigo tomar boas decisões.

“refresco de gengibre fácil fácil (ginger beer)”

Do livro “Dias Felizes com Jamie Oliver”.

– 140 g de gengibre fresco

– 4 c. sopa de açúcar mascavado

– 2 a 3 limões

– 1 litro de água com gás ou gasosa (usei “Pedras”)

– hortelã fresca (usei hortelã pimenta e menta)

Ralar o gengibre (pode-se deixar a casca). Usei o ralador da cenoura.  Colocar numa tigela e juntar o açúcar. Tirar a casca a 2 dos limões, adicionar ao gengibre a esmagar com um pilão de almofariz. Espremer os limões e adicionar o sumo à mistura. Juntar a água com gás e deixar repousar 10 minutos. provar e adicionar mais sumo de limão ou mais açúcar, de acordo com o gosto. Passar o refresco num coador, juntar muito gelo e, por fim, os raminhos de hortelã.

Aqui, acompanhou-se com uma tacinha de caju (cru e sem sal) . Bom fim de tarde.

almoço

lunch, originally uploaded by violeta from portugal.

Uma salada com tagliatelle (espinafre) a servir de base, atum, abacate, manjericão fresco, pimento padron e queijo gorgonzola. Temperada com óleo de girassol (pressão a frio), gengibre e curcuma. Acompanhada com uma fatia de “Pão São”, barrado com pasta de azeitona. Tudo salpicado com sementes de sésamo.

exercício semanal

Um bom exercício, às vezes, é simplemente desligar. Não pensar. O que nem sempre é fácil. Pode ajudar:

Ficar deitado debaixo de uma árvore apenas a ver e ouvir as folhas agitadas pelo vento…

Ouvir  o som  da lagoa, e o grasnar do patos que lhe deram o nome…

Andar de baloiço e concentrar-se somente em ganhar balanço e manter o movimento…

Decifrar declarações de amor “gritadas ao mundo”…

E, no geral, apreciar a beleza e a calma de um sítio destes e a sorte de o ter relativamente perto de casa.

do ponto A para o ponto B…

… e devolta ao ponto A, 9 km’s.

Hoje foi assim:

camping chic

Quem gostar de decoração e campismo tanto quanto eu só pode ficar fascinado com o acampamento estiloso publicado hoje na marie claire Maison.com.

Todos os anos, dois irmãos, Benjamin e Mathieu, vão instalar-se na lha de Yeu, onde a família possui um terreno. Aparentemente, trata-se de um lote onde não é permitida a construção e eles “raladíssimos”, armam barraca.  Literalmente. E em grande estilo. Ora vamos lá espreitar.

As tendas são militares e os manos não fazem a coisa por menos: cada um tem a sua. Versão “para oficiais”. O chão é revestido com paletes, depois cobertas com sisal. Lá dentro, apenas o mínimo, mas com muito conforto. O baú onde a tenda é guardada, fora da temporada, é reconvertido em mesa de cabeceira e um saco de exército serve para guardar a roupa.

Passemos à sala de jantar. Aqui, a mesa desdobrável também é de estilo militar, mas as cadeiras de vime suavizam o ambiente. A bancada de trabalho está colocada sobre um patamar também construído com paletes.

A bancada  consiste numa velha mesa onde uma cortina feita a partir de  velhos sacos de juta que correm sobre um tubo de cobre reciclado, esconde o frigorífico e o gás.  

O lava-loiça é uma bacia em zinco, encontrada no lixo e a torneira, um tubo de cobre grosseiramente dobrado accionada por uma bomba de pedal – das que antigamente se utilizavam nas caravanas.  A água provém de um jerrican que é preciso ir encher à fonte municipal, comme il faut dans le vrai camping.

Finalmente, o duche. Uma base feita de paletes e um chuveiro em cobre proveniente de uma feira de velharias que é também abastecido por um jerrican onde a água vai aquecendo naturalmente, ao longo do dia. Os acessórios complementam o estilo: mesa em zinco, bacia de esmalte, espelho e lanterna. A privacidade resulta da vegetação envolvente.

No final da temporada, nada mais simples do que desmontar o acampamento e guardar tudo num abrigo de jardim… até ao verão seguinte.

Eu estou… deslumbrada. Tudo o que eu agora queria era um pequeno terreno perto do mar, e o mundo seria PERFEITO.

epifania

new collage, originally uploaded by violeta from portugal.

Já vos aconteceu, no meio de uma conversa banal, serem assaltados por uma memória antiga? Daquelas que foram completamente soterradas pela passagem do tempo e depois aparece ali, fresca, nítida, como se tivesse acabado de acontecer? Aconteceu-me esta semana e acabou por me deixar inspirada para tentar uma nova colagem.

Os materiais são maioritariamente reciclados. A recordação também.

Além disso, aprendi a fazer um nó de forca. Embora não pense vir a precisar de um :)

Adenda:

«Certos estudos mostram que recordar momentos de felicidade ajuda a aumentar a felicidade no presente. Quando as pessoas se entregam às recordações, concentram-se em memórias positivas, pelo que recordar o passado amplifica o positivo e minimiza o negativo. […] um dos factores essenciais para a felicidade é extrair tanta felicidade quanto possível de um acontecimento feliz. […] Para aumentar o mais possível a felicidade associada a uma experiência, temos de a antecipar, saboreá-la à medida que se desenvolve, expressar a felicidade e recordar uma memória feliz. Qualquer experiência feliz pode ser amplificada ou minimizada, dependendo da atenção que lhe damos.» – Gretchen Rubin in Projecto Felicidade.

modern 50

E porque nem só de tolices se faz um blog, que tal deixar-vos, agora, um link para um sítio daqueles mesmo giros ou, na minha perspectiva, um verdadeiro “antro de perdição”? Então vão lá, e não se desgracem muito.

Modern 50: Mid-Century 20th Century Vintage Industrial