exercício semanal

by catarina clemente

« (…)

– Quer jogar?

– Não, eu não jogo.

– É uma pena. Tencionava apostar o meu restaurante contra o seu carro. Se perdesse esperava pelo fim das chuvas, atravessava o rio a pé, e seguia viagem. Se ganhasse pegava no carro e voltava para trás, para a vida que deixei…

Eu não queria voltar para trás. Não queria regressar à vida que havia deixado. Hesitei um instante e depois disse-lhe que sim, que estava disposto a jogar, que aceitava a aposta. Os olhos dele brilharam. Tirou do bolso das calças um par de dados muito gastos. Reparei que lhe tremiam os dedos, e que tinha as unhas manchadas de nicotina. Venceu-me sem dificuldade. Entreguei-lhe as chaves do carro e pedi um café. Sentia-me de repente muito cansado.

– Então é isto o fim?

– Não – respondeu-me Máximo sem perder o sorriso. – Não há fim. O que há são intervalos. »

in “Passageiros em Trânsito, Novos contos para viajar”, José Eduardo Agualusa

NÃO HÁ FIM. O QUE HÁ SÃO INTERVALOS.

(Desta vez, o exercício de reflexão, cada um fará o seu.)

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