nem tudo começa com um beijo

by catarina clemente

“Uma história intensa e com um grande ensinamento de vida, prende, sem grande dificuldade, desde a primeira até à última página. O amor na sua forma mais primária e pura aliado a um grande exemplo de verdadeira amizade e companheirismo. Tudo bons pretextos para perder um par de horas e “saborear” a prosa genial de Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira” – Joana Carvalho, O Comércio do Porto, 12 de Junho de 2005

« (…)

– Vamos falar de coisas mais agradáveis  – decidiu.

E falaram. Durante toda a noite, a manhã do dia seguinte e boa parte da tarde. As palavras derrapavam no céu da boca, tanta era a pressa de serem ditas, falaram de tudo e de mais alguma coisa, tinham um mundo de conversa para pôr em dia, muitos segredos para partilhar.

– Que horas são? – Perguntou Nuvem Maria a um dado momento.

– Não sei, não tenho relógio – respondeu Fio Maravilha.

– Mas já deve ser tarde – acrescentou enquanto mirava as estrelas que dançavam no céu.

Os velhos que jogavam às cartas tinham regressado a casa, os casais de namorados anichavam-se no escuro, o sol há muito que tinha morrido no horizonte, as luzes da cidade começavam a acender-se.

– Amanhã, a gente vê-se? – Implorou Nuvem Maria.

– Espero que sim.

– Então está combinado?

– Está combinado.

(…)

– Gostava tanto de andar num submarino.

– Bom, isso não te posso dar. Mas tenho uma surpresa para ti.

– Que surpresa?

– É uma coisa doce.

– Vá lá, não me faças sofrer. Diz o que é.

– Gostas de chocolates?

– Não sei. Nunca provei.

Nuvem Maria abriu o saco e retirou uma caixa cheia de chocolates. Ele tirou um, gostou, tirou outro, gostou ainda mais, e os dois ficaram a contemplar o mar, a devorar chocolates. Pele contra pele, coração contra coração. Falaram de tudo e de nada, da chuva e do bom tempo, da noite e do dia, da Cave e do Sótão, das coisas más, mas sobretudo, das boas.

– Já tenho saudades tuas – confessou Fio Maravilha.

– Como assim? Estou aqui colada a ti!

– Tenho saudades do dia em que não estiveres perto de mim.

– Mas isso nunca vai acontecer.

Por breves instantes, ficaram a olhar um para o outro. Depois ela aproximou-se ainda mais, o seu perfume cheirava a lavanda, soltou a sua farta cabeleira loura, Fio Maravilha era capaz de jurar que cada fio do seu cabelo era uma filigrana de ouro, colou os lábios aos seus ouvidos. Antes que ele dissesse alguma coisa, ela colocou-lhe a palma da mão sobre a boca. Depois beijou-o com os olhos, a língua, sobretudo com o coração. Foi um beijo prolongado, de cortar a respiração. Um beijo sentido, muito aguardado. Sabia a pastilha elástica.

– Podia ficar a noite toda assim – confidenciou Nuvem Maria.

– A vida toda – respondeu Fio Maravilha

Este livro está na minha estante há vários anos. Comprei-o porque gostei das ilustrações mas nunca cheguei a lê-lo. Hoje peguei-lhe e fiquei deliciada. Uma escrita doce, delicada, simples e fresca. Como o primeiro amor deve ser.


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