os poetas

by catarina clemente

[imagem: Pedro Martins]

“Eugénio de Andrade disse um dia: «Às vezes sinto-me tão desesperado que me sento a escrever como quem chora». O poeta chora como só no absoluto da adolescência se sabe (…). O fim da juventude sucede quando os exércitos do bom senso aparecem ao redor das almas para as aplanarem, a poder de terra ou, nalguns casos, de cimento. (…) Trata-se de um processo lento, profissional, quase imperceptível: um dia um amigo abandona-nos e encolhemos os ombros, um dia descobrimo-nos cáusticos por tudo e deslumbrados por nada, um dia a própria palavra deslumbramento nos dá vontade de rir, um dia a febre da melancolia transforma-se na enxaqueca do tédio, um dia chamamos pudor ao pavor e juramos que nunca mais havemos de chorar. Os poetas sobrevivem a estas juras, pela arte que têm em escapar às fronteiras epistemológicas que isolam essências e aparências. E pela contínua vigilância sobre a corrosão das palavras. O seu trabalho intelectual parte da ousadia de se expor sentindo. (…) Têm a coragem de manter a alma adolescente, velha, cheia de musgos e de rasgões. (…) Partem sempre da estranheza do mundo, que é aquilo que os impede de cair na tentação da extrapolação global. E que lhes permite guardar pelos anos fora a juvenil humildade do pormenor relevante. A poesia impede a dissolução dos rostos, nomeias-os e descreve cada uma das suas sombras, fragilidades, desejos e sonhos. Nesse sentido, é uma barragem contra a desumanidade (…).”

Inês Pedrosa

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