para vos poupar ao meu amor não contem comigo

by catarina clemente

“Constato, pela primeira vez e com alguma violência, que o mundo contemporâneo não foi feito para mim. Ou que eu não fui feita para o mundo contemporâneo. Sinto – fulminantemente e obscuramente e dolorosamente – que a matéria de que sou feita não poderá resistir a um só dos maravilhosos planos que a civilização humana tem preparados para mim desde há séculos (…). Do que eu preciso é de um mundo onde possa (…) viver livremente o meu romantismo sôfrego e vagamente idiota.

(…) Não contem comigo. Eu não tenho jeito nenhum para ser a pessoa que todos esperam. Não tenho competência para ficar a ver o amor passar sem correr atrás. Compreendam: o amor é a minha campainha de Pavlov. Estímulo-resposta, como me foi explicado na escola de fazer profissionais. Eu não tenho jeito para telefonemas nem para passeios em centros comerciais. Não contem comigo para ser cão que ladra mas não morde. Não contem comigo para não dizer o que não é suposto. Para cancelar beijos, inventar pretextos, sufocar euforias, adiar alegrias. Para vos escutar em silêncio. Para vos poupar ao meu amor, não contem comigo.”

– Susana Santos, 2º Prémio Concurso Textos de Amor 2007, Museu Nacional da Imprensa

[ilustração: Graça Paz 2010]

(…) E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros

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