sobre a utilidade da arte

by catarina clemente

«A arte, mesmo a de maior alcance e mais ampla visão, nunca nos mostra o mundo exterior. Tudo o que nos mostra é a nossa própria alma, o único mundo que realmente conhecemos. E a alma em si, a alma de cada um, é para nós próprios um mistério. Esconde-se na obscuridade, a meditar, e a consciência não é capaz de nos revelar os seus planos. A consciência, na verdade, é bastante desadequada para explicar o conteúdo da personalidade. É a arte, e apenas a arte que nos revela a nós própios.

Sentamo-nos para ver uma peça com a mulher que amamos, ou ouvimos música num jardim de Oxford, ou passeamos com um amigo pelas frescas galerias da casa do Papa em Roma, e de repente tomamos consciência  de que temos paixões com que nunca sonháramos, pensamentos que nos amedrontam, prazeres cujo segredo nos foi negado, penas que foram escondidas das nossas lágrimas. O actor não tem consciência da nossa presença; o músico está concentrado na subtileza da fuga, no timbre do seu instrumento; os deuses de mármore que nos sorriem são feitos de pedra insensível. Mas deram forma e matéria ao que estava dentro de nós; permitiram-nos compreender a nossa personalidade; e um sentimento de agradável risco, ou um toque de adrenalina ou dor, ou aquela auto-comiseração que os homens sentem tão frequentemente, invade-nos e modifica-nos. »

– oscar wilde, in o retrato do sr. w. h.

[imagens: todd mclellan, série disassembly]

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