chá

interiors. ideas. emotions. life.

Month: June, 2011

o caso dos portões

imagem: pedro martins

“É o caso dos portões. Em viagem, quando atravessamos os campos de automóvel, não é raro vermos afastarem-se uns portões enigmáticos em terras meio abandonadas ou já de todo baldias. Ali o caminho esconde-se entre a erva, os arbustos loucos e os detritos vegetais que o vento arrasta. Não sabemos sequer se os batentes abrem para cá ou para lá, e muitas vezes os portões não se continuam em muros ou arames, e tudo isto tem um ar misterioso de terra assombrada. Mas pior ainda é se os portões desapareceram e deles ficaram apenas os dois pilares gémeos, virados um para o outro, como quem pergunta se já não há mais nada a esperar.

[…] Por isso os portões velhos me inquietam, por isso os pilares abandonados me intimidam. Quando vou atravessar o espaço que eles guardam, não sei que força rápida me retém. Penso naquelas pessoas que vivas ali passaram e é como se a atmosfera rangesse com a respiração delas, como se o arrastar dos suspiros e das fadigas fosse morrer sobre a soleira apagada. Penso nisto tudo, e um grande sentimento de humildade sobe dentro de mim. E, nem sei porquê, uma responsabilidade que me esmaga.

[…] E o silêncio? E o silêncio para onde os portões abrem?”

– josé saramago, a bagagem do viajante

today’s soundtrack

 

@33

Eu, aos 33. Tanto para aprender, quase tudo por definir, absolutamente nada de acordo com o planeado.

Realizei pouco do que intencionava, mas muito mais do que alguma vez me atrevera a imaginar.

Conheço-me melhor, tolero-me mais e há momentos em que chego a compreender-me. E às vezes tomo a liberdade de me perdoar.

Sou menos ambiciosa, tenho menos mas tenho mais.

Não tenho um jardim, mas  todos os jardins são meus.

Não sei o que o futuro me reserva, nem tenho pressa de saber.

Aos 33, sou adolescente, sou patética, tenho dúvidas, tenho sonhos, estou apaixonada. Aos 33, engano-me e cometo erros. Escrevo-apago-e-volto-a-escrever. E nunca estive tão serena.

 

enganos

“…julguei poder tomar como regra geral que as coisas que nós concebemos muito claramente e muito distintamente são todas verdadeiras. Há somente alguma dificuldade em notar bem quais são as que nós concebemos distintamente.”

– rené descartes, discurso do método, 1637

weekend

Fim de semana a cheirar a manjerico, para comer as primeiras sardinhas assadas do ano e dizer adeus às favas.

done!

1 palete usada 800×1400 = 2,5€

4 rodízios giratórios com travão ⌀80mm = 0€*

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TOTAL= 2,5€

*os rodízios foram oferecidos por um amigo;o preço de mercado ronda os 10€/unidade

 

 

coffee table

image from "at home with kim vallee"

image from "caIsa K"

tão simples quanto isto.

chá na literatura

“Num canto mais escuro a prima Angélica não levanta a cabeça de sobre a meia. Tanta inveja ruminou que desaprendeu de falar. Chega o chá, toma o chá, e apega-se logo à mesma meia, a que mãos caridosas todos os dias desfazem as malhas, para que ela, mal se erga, recomece a tarefa. […] Passou um minuto ou um século?”

– raul brandão,  húmus, 1917

anti-natura

nada é tão desconfortável e asfixiante quanto tentar ser quem não somos.

[anatomicamente adaptado é sermos nós próprios. porém, desengane-se quem o julga fácil. fácil é ser seguir a manada. fácil é sermos como se espera que sejamos. descobrir quem somos é um caminho que exige o esforço de pensar com a própria cabeça, a coragem de ser diferente e a ousadia de desdenhar das críticas. no entanto, é também a única via para descobrir a pele que nos cabe melhor: a nossa.]

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