chá

interiors. ideas. emotions. life.

Month: August, 2011

hoje

30 de agosto de 2011

 

A vida é a oferta que agradeço
hoje. Toda a vida é hoje. Os teus olhos
e os meus olhos. O ponto em que se deram
é hoje. E até onde chegam e de onde
regressam, é hoje.

Toda a vida é hoje, e parece-me
suficiente o ter vivido tanto
se neste hoje de hoje cabe o teu lúcido
olhar sobre mim, e o futuro é
um hoje perpetuamente teu.

 

– federico gallego ripoll

mimo-no-caco

como neta mais velha fui, durante uns anos, o mimo-no-caco dos tios.

estes cacos, são um mimo da minha tia fátima :))

mimo-no-caco:
m. T. fam. da Bairrada.
O mesmo que mimalho.
Choramingas.
léx;co dicionário português online

hooked up

ilustração: BessiePooh

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

– david mourão-ferreira

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Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois de um vento me ter feito frente
Navego com todos os ventos.

– friedrich nietzsche

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Em ti há um marinheiro demandando uma ilha onde ninguém ainda esteve.

Também em ti encontrarás o mapa, a bússola e o navio.

– arménio vieira

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atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa me levar.

– pablo neruda

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Que nem o vento passe onde tu passas.

– sophia de mello breyner andresen

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Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar.

– jorge palma

a questão do “eu”

A dificuldade, na gestão da auto-estima, reside na definição de um algoritmo de controlo que assegure, continuamente, a manutenção dos seus valores dentro da gama desejável. Valores abaixo do setpoint, corróiem-nos a alma. Mas logo que o ultrapassam, deixam-nos expostos ao ridículo.

Mas a questão essencial coloca-se na definição do setpoint em si mesma. Como podemos confiar no valor que consideramos adequado atribuir à nossa própria pessoa se é essa mesma pessoa a atribuí-lo?

eu, o insistente e enfático eu em itálico, o eu ao qual estou brutalmente afeiçoado”.

– julian barnes

collection update

a bola, doggy?

(in)compreensivelmente (in)compreendidos na sua (in)compreensão*

* adicionar ou remover prefixos a gosto

“Eu acreditava, quando era «só» leitor, que os escritores porque escreviam livros onde se encontrava a verdade, porque descreviam o mundo, porque perscrutavam o coração humano, porque captavam tanto o particular como o geral e eram capazes de os recriar a ambos de forma livre mas estruturada, porque compreendiam, deviam ser por isso mais sensíveis – e menos vaidosos, menos egoístas – do que as outras pessoas. Depois, tornei-me escritor, comecei a encontrar outros escritores, observei-os e concluí que a única diferença entre eles e as outras pessoas, a única coisa em que eram melhores, é que eram melhores escritores. Podiam ser de facto sensíveis, perspicazes, sábios, saber generalizar e particularizar – mas só sentados à secretária e nos seus livros. Quando se aventuram no mundo, geralmente comportam-se como se tivessem deixado toda a compreensão do comportamento humano nos seus originais dactilografados.”

– julian barnes

Isto é para dizer
Que eu sei
Que gostarias de andar pelos bosques,
A viver uma vida de poeta,
Em vez de estares aqui a uma mesa de fórmica
Num debate sobre as evidentes particularidades das vantagens
e compensações oferecidas aos funcionários desta faculdade,
Também eu gostava que andasses pelos bosques
Porque, acredita, não tem piada nenhuma ter um poeta frustrado
No Departamento de Recursos Humanos.
Nos poemas que escreveste que eu li transparece sempre a ideia
de seres inteligente e decente e paciente de um modo
Nada evidente para nós neste serviço,
E assim, sabendo como os poetas são capazes de fazer de um problema
uma festa,
De cultivar flores numa cama de bebedeiras, divórcio e desespero,
Dou-te este cheque relativo a duas semanas de ordenado
E peço-te que esvazies hoje a tua secretária
E que vás para casa
E escrevas um poema
Com um sapo verdadeiro
E ameixas no frigorífico
Tão doces e tão frescas.

–  r. j. ellmann

pardais ao cesto

scarecrow, originally uploaded by catarina clemente♡.

privilégios quotidianos

o jantar, por ele: tostinhas, pasta de ovas, risotto de marisco e caranguejo real;

a mesa, por ela: alecrim em flor e violetas;

é por estas e por outras que ela gosta dele.

lindo lixo