férias’11: 8º episódio “viagem ao passado”

by catarina clemente

Último dia, última caminhada.

Destino: Vilarinho de Furnas, aldeia submersa pelas águas da barragem desde 1971.

Não vou tentar explicar o que sinto num local como este. Só quem, como eu, tem paixão pelo passado – mesmo aquele que não me pertence – pode compreender.

Muriel Rukeyser teve, a este propósito, uma frase brilhante: “o universo é feito de histórias, não de átomos”.

E eu poderia fazer agora um belo exercício de escrita acerca do que o passado significa para mim (o meu inclusive) e recheá-lo de sentenças elaboradas e vocábulos extravagantes para tentar justificar esta minha adição. Talvez até devesse fazê-lo a bem do esclarecimento daqueles que, de vez em quando, me acusam de me agarrar em demasia ao que já passou. Mas não é caso para tanto. Não me levo assim tão a sério. O que se passa é que sou irremediavelmente nostálgica e pateticamente romântica. Só isso.

E talvez por isso (deixem-me acreditar que sim), havia à minha espera, sob as águas de Vilarinho de Furnas, há pelo menos 40 anos, um fragmento de cerâmica com um casal de passaritos…

“Vem aí a presa.” A frase verbalizava o receio de desaparecimento da aldeia nos anos que antecederam o enchimento da albufeira. A “presa” começou a ser uma realidade cada vez mais próxima, até que, em 1971, foi preciso meter toda a aldeia em carrinhas e tirá-la dali. […]

No dia seguinte só havia silêncio. Houve uma voz que se apagou.” Vilarinho da Furna estava logo do outro lado do rio. “Tinham rebanhos de cabras, tinham vacas e porcos, mas de repente deixámos de os ouvir.”

Público, 23.08.2009

Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavras,
aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de finados.
Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento
.

Miguel Torga, 1976

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