(in)compreensivelmente (in)compreendidos na sua (in)compreensão*

by catarina clemente

* adicionar ou remover prefixos a gosto

“Eu acreditava, quando era «só» leitor, que os escritores porque escreviam livros onde se encontrava a verdade, porque descreviam o mundo, porque perscrutavam o coração humano, porque captavam tanto o particular como o geral e eram capazes de os recriar a ambos de forma livre mas estruturada, porque compreendiam, deviam ser por isso mais sensíveis – e menos vaidosos, menos egoístas – do que as outras pessoas. Depois, tornei-me escritor, comecei a encontrar outros escritores, observei-os e concluí que a única diferença entre eles e as outras pessoas, a única coisa em que eram melhores, é que eram melhores escritores. Podiam ser de facto sensíveis, perspicazes, sábios, saber generalizar e particularizar – mas só sentados à secretária e nos seus livros. Quando se aventuram no mundo, geralmente comportam-se como se tivessem deixado toda a compreensão do comportamento humano nos seus originais dactilografados.”

– julian barnes

Isto é para dizer
Que eu sei
Que gostarias de andar pelos bosques,
A viver uma vida de poeta,
Em vez de estares aqui a uma mesa de fórmica
Num debate sobre as evidentes particularidades das vantagens
e compensações oferecidas aos funcionários desta faculdade,
Também eu gostava que andasses pelos bosques
Porque, acredita, não tem piada nenhuma ter um poeta frustrado
No Departamento de Recursos Humanos.
Nos poemas que escreveste que eu li transparece sempre a ideia
de seres inteligente e decente e paciente de um modo
Nada evidente para nós neste serviço,
E assim, sabendo como os poetas são capazes de fazer de um problema
uma festa,
De cultivar flores numa cama de bebedeiras, divórcio e desespero,
Dou-te este cheque relativo a duas semanas de ordenado
E peço-te que esvazies hoje a tua secretária
E que vás para casa
E escrevas um poema
Com um sapo verdadeiro
E ameixas no frigorífico
Tão doces e tão frescas.

–  r. j. ellmann

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