abrir as gavetas da memória

by catarina clemente

abril de 1989: a minha avó, feliz, entre mim e um dos meus tios. (nunca foi de grandes manifestações mas reconheço-lhe a expressão). encontro a fotografia por acaso e começo a lembrar-me, com uma nitidez inesperada, dos detalhes da viagem: sítios onde fomos, conversas que tivemos, coisas que comemos. a minha avó mimava-me sempre mas quando tomava conta de mim, sem os meus pais estarem, mimava-me ainda mais.

de repente, surge-me uma avalanche de memórias desta avó antes da doença lhe ter roubado a identidade: a tirar croissants quentes do forno, a comprar-me uma fatia de pizza na rua, a levar-me ao parque infantil, as pernas bem torneadas nos saltos de cunha, os vestidos que duravam anos, as compotas com pedaços de fruta generosos, a bola de berlim com que me entrava pela porta dentro todos os sábados e até o gato minou que chegou de frança com trela e acabou os dias a correr livre pelos campos.

junho de 2010: provavelmente uma das últimas vezes que se sentou connosco à mesa. a partir daí o declínio foi vertiginoso. com o tempo, acabei por me habituar a vê-la acamada e alheia à realidade e cada vez é mais difícil lembrar-me dela com a genica, o mau feitio e a imensa generosidade que lhe conheci.

considerada “limitada” por muitos (e, de facto, não teve o benefício da instrução escolar ou sequer de uma estrutura familiar adequada) e com uma personalidade aparentemente (e só aparentemente) apagada, como mãe e avó era uma leoa. defendia, protegia e providenciava.  devo-lhe muito.

esta semana perguntei-lhe: “gostas de mim?”
e num momento raro, teve a lucidez de responder e, com dificuldade, disse: “eu gosto!”
“eu também gosto muito de ti” – respondi-lhe.

– 9 de janeiro de 2013

avó. 1989avó. 2010

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