como dizer adeus?

by catarina clemente

avôHerdei-lhe a inconstância, a insatisfação e o mau feitio. Devia ser mais como o meu avô Zé e estar sempre de bem com a vida, a sorrir, a encolher os ombros e deixar para lá. Mas não sou Zé, sou António. Corre-me nas veias a impetuosidade.
Passaram duas semanas e continuo sem saber como lhe dizer adeus. Penso em tudo o que fez por mim e como me apoiou em todos os momentos. Recordo as nossas conversas (era velho mas não pensava como um velho)… Penso no cruzeiro no Douro que lhe prometi e nunca chegaremos a fazer… Custa-me que tenha partido sem ver a sua casa habitada outra vez… E lamento nunca lhe ter dito o quanto o amava.
Ofende-me que pessoas bem próximas de mim não se tenham dado ao trabalho de uma palavra, de uma mensagem, de um telefonema. Porventura a morte de um velho é menos trágica?
Em cerca de três meses perdi uma avó e um avô. Dos meus quatro avós, restam-me agora memórias: as vozes, os sorrisos, as mãos, o que aprendi com cada um deles… E um orgulho imenso de os ter tido como avós. Todos eles.

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