chá

interiors. ideas. emotions. life.

Category: a história de uma casa

já cá estamos, avô

muito ainda está por fazer, mas cumprimos a promessa: estamos cá. a casa tem gente dentro, outra vez.
o telefone voltou a tocar, as luzes voltaram a acender-se, a loiça voltou a sair dos armários… a casa voltou a ser casa.
a memória dos meus avós está presente em toda a parte, numa saudade difícil de explicar. o sentimento de perda mistura-se com o orgulho de cuidar do que eles deixaram. tirar o pó e voltar a usar, ganhou sentido de missão.
a história de uma casa recomeça aqui.
já cá estamos

está quase, avô…

o progresso tem sido lento, lentíssimo. passaram quase dois anos desde que a decisão foi tomada. houve avanços e recuos sucessivos. mas finalmente os resultados começam a aparecer e tudo está a ganhar forma. não tarda muito, a tua casa será de novo uma casa com gente dentro.está quase, avô...

da casa: avanços pequeninos

dezenas de pormenores, pouco tempo e um orçamento modesto.
cama de renda [wip]cama de renda [wip]quarto da carmo [wip]
[chegarás a ver a casa que tanto te custou construir novamente habitada?]

a história de uma casa: continuação

muitos meses depois, a história da casa continua. devagar, muito devagar. porque há demasiadas coisas a fazer e porque (quem já tentou mexer numa casa velha, sabe como é) quando se resolve um problema aparecem logo dois. continuamos sem “soalhos de madeira nobre” ou “mosaico hidráulico”, mas temos umas boas imitações :P

wipwip

a história de uma casa: o princípio

eu gostava de herdar uma casa com soalhos de madeira nobre, tetos altos e trabalhados, portas de folha dupla, banheiras vitorianas e mosaico hidráulico na cozinha. infelizmente, nenhum dos meus avós teve oportunidade de viver numa casa assim, muito menos de deixá-la em herança (o mais próximo disto foi esta casa, onde o meu avô paterno cresceu). a realidade dos meus avós foi, como para a maioria dos portugueses naqueles tempos, bastante mais dura e menos romântica.

é exatamente num período de dificuldades económicas que esta história começa. no princípio da década de 60 o meu avô materno começou a construir uma CASA esperando ser capaz de pagá-la com a alfaiataria-barbearia-taberna que instalou no rés do chão. porém, a época era de pobreza, os clientes não pagavam e rapidamente o meu avô se viu a braços com um empreendimento que não pôde suportar. para pagar o que já tinha construído e conseguir concluir a obra, viu-se obrigado dar “o salto“.

a partir daqui, a história confunde-se com a de milhões de portugueses “no maior êxodo e na maior hemorragia humana que alguma vez a história de portugal conheceu”: atravessou fronteiras clandestinamente, ajudado por passadores, caminhou através dos pirinéus gelados e chegou sem nada, a uma frança estranha, sem gente conhecida e um idioma que não falava. cá, deixou a minha avó desolada e assustada com três filhos pequenos e um a caminho, com uma CASA meia feita, meia por fazer e uma fila de credores a bater à porta.

em frança, foi acolhido temporariamente por um jovem (que tinha deixado portugal para fugir ao serviço militar em áfrica) e teve de sujeitar as mãos delicadas de alfaiate ao trabalho da construção civil. com o tempo, acabou por encontrar empregos mais fáceis e, depois, um lugar onde viver com a mulher e os filhos, que se juntaram a ele.

em portugal, a CASA haveria de ficar vazia e fechada e os trabalhos de construção avançariam ao ritmo das férias de verão e à medida dos dinheiros disponíveis e dos materiais possíveis, quase sempre os mais baratos. mais tarde, haveria de alojar, no primeiro andar,  os meus pais nos primeiros anos de casados e, no rés do chão, um casal  de retornados chegado de angola e sem casa onde morar. também ali, a mãe do meu avô viveria, com os meus pais, os últimos anos da sua vida. e finalmente, os meus avós acabariam por regressar ao seu país e à sua CASA para gozarem a reforma. e assim, com gente a entrar e a sair,  a CASA viria a sofrer intervenções sucessivas, com pouco ou nenhum planeamento, resultando numa construção descaracterizada e incoerente, numa mistura duvidosa de materiais de estilos e épocas diferentes.home to be

desde que os meus avós deixaram de poder viver vizinhos, a CASA voltou a ficar vazia e há algum tempo que o meu avô vinha insistindo comigo para que a habitasse. mas eu confesso que, até há pouco tempo, não lhe agourei outro futuro que não o da demolição. só que isso foi noutra época, noutra vida, quando eu pensava de outra maneira. recentemente comecei a ver as coisas de forma diferente. esta CASA encerra a história de metade da minha família. não é uma história glamorosa, mas é a nossa história, é de onde eu sou e de onde eu venho. e se há coisa que tenho aprendido é a importância de ser eu mesma e de me aceitar com sou. e foi nesta CASA que vivi os meus primeiros anos, foi onde aprendi a andar e a falar e é ali que estão as minhas primeiras memórias. além disso, se eu acredito em recuperar, reciclar, reutilizar e reduzir, que sentido faz deixar uma CASA vazia enquanto me esforço por pagar outra?

o mais engraçado é que assim que comecei a ver as coisas desta perspetiva, a CASA começou a parecer-me diferente. onde antes só via problemas comecei a ver soluções e onde não via nada, comecei a ver potencial. e desafiei-me a transformar esta CASA desajeitada num sitio agradável para se viver. claro que há um imenso trabalho a fazer e dinheiro para gastar que não temos. mas temos vontade, quatro mãos que trabalham juntas, duas cabeças que se entendem e muita boa disposição para usar pelo caminho.

e assim – ironia do destino -, é exatamente numa época de novas dificuldades económicas, com uma nova hemorragia de emigrantes (que o governo não consegue ou não quer estancar) que a história desta CASA continua. 50 anos depois de o meu avô ter deixado o país, sem alternativa, eu ainda tenho a alternativa de ficar, e fico. 50 anos depois, a casa que o meu avô construiu com esforço vai ver uma bisneta crescer. é ou não um final feliz?