chá

interiors. ideas. emotions. life.

Category: Books

may giveaway

tinha planeado algo um pouco mais pessoal mas, por falta de tempo, vi-me obrigada a atalhar caminho. então cá vai. “quando a mãe era pequena”, é um livro escrito pela joana cabral que relata às nossas crianças factos tão inacreditáveis quanto o de ter existido um tempo em que havia um único telefone em casa, que “era da família toda e quando tocava não se sabia para quem era”. quem quiser habilitar-se a ganhar este exemplar só tem de deixar um comentário a dizer do que mais sente falta do tempo em era pequena. seja mãe ou não. podem candidatar-se até 10 de junho.

my giveaway

chá na literatura

“Estávamos dentro de um balão de ar quente […]. Sobrevoávamos as terras de Lácio. Metzger cofiou o bigode enquanto bebíamos chá, as nuvens cruzando-se ao nosso lado como algodão doce. Depois ajustou a cartola e disse:

«Meu caro, o mundo é nosso.»
«Dificilmente», respondi. […]
«Pelo menos aqui em cima é nosso», insistiu Metzger. «Temos o nosso chá, temos o nosso lastro, temos o céu todo por nossa conta.»
«E quando pousarmos?»
«Não pousaremos.» […]
«Este balão é daqueles que apenas sobe.»”

– joão tordo, o bom inverno

a ver

as pessoas que me interessam, agora em filme.

a photo a day 23.03.2012

seven[moon]

a primeira vez que peguei n’ “o princepezinho” foi nestas férias. tratava-se de uma edição em francês (julgo que pertencia a um dos meus tios mais novos) e apesar das traduções que insistiam em fazer-me não entendi nada da história. só mais tarde, com uma edição em português haveria de me render à escrita de saint-exupéry. quanto às ilustrações, perdi-me de amores por elas desde o primeiro dia. e, para mim, o asteróide B612 sempre foi a lua.

(na imagem, o meu exemplar do livro e uma fotografia tirada nessas férias)

do remorso

O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor da próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.

– aldous huxley in admirável mundo novo (prefácio de 1946)

Há a boca pisada de pedras,

e o remorso

é uma parede mordida pelo eco.

A mulher fechou-se no quarto

com a noite entre as mãos.

Está funda na casa.

Mas partidas todas as lâmpadas

a cegueira é ainda uma forma de ver.

– jorge melícias

entre mim e mim

"self knowledge" illustration by M-C Turgeon for Skirt Magazine (US)

“(…) entre mim e mim interpõe-se um muro. (…) passa-se no silêncio, despercebido, entre mim e mim. É um debate perpétuo.

Há um ser que ocupa o meu ser e me domina quer eu queira quer não queira. Talvez eu seja um ser complexo, talvez os outros sejam tão complexos como eu. Tudo me faz sofrer – mas metade do meu sofrimento é representado. Tenho, é certo, dúvidas – mas metade das minhas dúvidas são postiças. Hei-de acabar por não crer em mim como não creio nos outros.

Eterna contradição de todo o teu ser. Não sabes o que queres nem como o queres. Não sabes no que crês nem no que não crês. És um impulso. Vais até à cova levado por todos os ventos, sempre a barafustar sem sentido. Explicas tudo, ignoras tudo, adivinhas tudo.”

raul brandão, húmus

o caso dos portões

imagem: pedro martins

“É o caso dos portões. Em viagem, quando atravessamos os campos de automóvel, não é raro vermos afastarem-se uns portões enigmáticos em terras meio abandonadas ou já de todo baldias. Ali o caminho esconde-se entre a erva, os arbustos loucos e os detritos vegetais que o vento arrasta. Não sabemos sequer se os batentes abrem para cá ou para lá, e muitas vezes os portões não se continuam em muros ou arames, e tudo isto tem um ar misterioso de terra assombrada. Mas pior ainda é se os portões desapareceram e deles ficaram apenas os dois pilares gémeos, virados um para o outro, como quem pergunta se já não há mais nada a esperar.

[…] Por isso os portões velhos me inquietam, por isso os pilares abandonados me intimidam. Quando vou atravessar o espaço que eles guardam, não sei que força rápida me retém. Penso naquelas pessoas que vivas ali passaram e é como se a atmosfera rangesse com a respiração delas, como se o arrastar dos suspiros e das fadigas fosse morrer sobre a soleira apagada. Penso nisto tudo, e um grande sentimento de humildade sobe dentro de mim. E, nem sei porquê, uma responsabilidade que me esmaga.

[…] E o silêncio? E o silêncio para onde os portões abrem?”

– josé saramago, a bagagem do viajante

enganos

“…julguei poder tomar como regra geral que as coisas que nós concebemos muito claramente e muito distintamente são todas verdadeiras. Há somente alguma dificuldade em notar bem quais são as que nós concebemos distintamente.”

– rené descartes, discurso do método, 1637

é dessas coisas que depende a vida

“A vida não se rege pela vontade ou pelas intenções. A vida é uma questão de nervos, de fibras, de células lentamente edificadas onde se oculta o pensamento e a paixão tem os seus sonhos. (…) a tonalidade circunstancial de uma sala, ou um céu matinal, ou determinado perfume que em tempos apreciaste e que traz consigo subtis memórias, um verso de um poema esquecido com que de novo te deparas, a cadência de uma peça musical que deixaste de tocar… digo-te Dorian, que é dessas coisas que depende a vida.”

– oscar wilde in o retrato de dorian gray

“Life is not governed by will or intention. Life is a question of nerves, and fibres, and slowly built-up cells in which thought hides itself and passion has its dreams. (…) a chance tone of colour in a room or a morning sky, a particular perfume that you had once loved and that brings subtle memories with it, a line from a forgotten poem that you had come across again, a cadence from a piece of music that you had ceased to play– I tell you, Dorian, that it is on things like these that our lives depend.”

mary randolph carter

Mary Randolf Carter  podia ser chamada a verdadeira coleccionadora de tralha. A raínha do lixo. A mestre na arte de viver no meio da bagunça.

Na verdade, nada disto se aplica a Carter (como gosta de ser tratada). Na qualidade de  vice – presidente  sénior da Ralph Lauren Publishing, ela empresta à marca o seu estilo artisticamente desorganizado e o seu amor pelo antigo e pelo usado.

Autora de vários livros, a sua última publicação,  A Perfectly Kept House Is the Sign of a Misspent Life, é uma ode à casa confortável, vivida, repleta de memórias e significados. Uma exaltação da beleza da imperfeição e dos objectos que nos fazem sentir bem.

How to live creatively with collections, clutter, work, kids, pets, art, etc… and stop worrying about everything being perfectly in its place.

 Life isn’t perfect.

Why should your house be?

 Mary R. Carter em Entrevista  à  styleathome.com, Liza Finlayda

[tradução-livre]

 

STYLE AT HOME: Portanto, aqui estamos nós hoje para falar de um monte de lixo! O que é “lixo”, exactamente?

Mary Randolph Carter: (risos) Bem, para mim, lixo não é verdadeiramente lixo. É apenas algo velho. Quando publiquei American Junk, tive problemas com a editora por causa do nome do livro. Eles perguntavam como é que íamos vender aquele livro com a palavra lixo pespegada na capa.  Acredito firmemente que nós escolhemos o que tem valor. Não tem a ver com a proveniência. Tem a ver com o que gostamos, com o que apela aos nossos sentidos. Não interessa se o encontramos numa venda de garagem ou numa loja de antiguidades.

S@H: Porque é que o “lixo” é tão importante?

MRC: Tem um valor nostálgico. Quero que a minha casa seja confortável, que tenha continuidade com o meu passado. Que seja um reflexo da minha vida. Para mim, significa estar rodeada por objectos que evocam memórias – memórias do meu passado, de viagens que fiz, de experiências que tive. É aquela fotografia envelhecida dos nossos avós numa moldura moderna de aço ou o conjunto de pratos que te recordam uns que já tiveste antigamente.

S@H: Acredita mesmo que há espaço para o lixo na casa contemporanea?

MRC: Absolutamente. O contraste entre o velho e o novo torna a vida interessante. Penso que são necessárias peças velhas, únicas, para equilibrar a modernidade. Por exemplo, o meu filho e eu encontrámos uma mesa de café para o apartamento dele que alguém tinha coberto com capas de revistas. Cobrimos com um pedaço de vidro, e agora a mesa é o contraponto perfeito para todo aquele aço e vidro que existe nas casas modernas. A mesa acrescenta calor e aconchego – é como usar um casaco vintage com um par de botas novo. É necessário misturar um pouco as coisas. Caso contrário um ambiente pode facilmente  tornar-se banal, enfadonho e com falta de personalidade.

S@H: Diga-nos, como foi que a sua história de amor com todas estas coisas começou?

MRC: Eu sou da Virginia, a mais velha de 9 irmãos. Crescemos numa casa muito bonita que era um celeiro que tinha sido restaurado. Quando eu tinha 16 anos, essa casa ardeu completamente. Perdemos tudo (menos a vida, felizmente), incluindo  heranças de família, fotografias, e até os livros que nos tinham sido lidos vezes e vezes sem conta. Eu aprendi uma lição importante acerca de quais as possessões materiais que relamente são importantes para mim. Quando começámos de novo, não comprámos coisas novas. Os meus pais foram à procura de coisas usadas para substituir as coisas de família. Tínhamos um capacho que dizia: “Uma casa demasiado “arrumada” é sinal de uma vida desperdiçada”. Acho que posso dizer que coleccionar pequenos tesouros do pasado é uma espécie de valor de família. Tornou-se uma coisa natural. Existe algo de muito excitante na confusão e no caos de uma loja de 2ª mão.

S@H: Como é que consegue descobrir tesouros  no meio desse caos?

MRC: Quando se está a começar, o que ajuda é pegar num tema e começar uma colecção. Por exemplo, eu gosto de coisas que se possam pendurar na parede porque entretanto já fiquei sem espaço em todos os outros sítios, na minha casa.  Com o passar dos anos, acabamos por desenvolver um instinto especial, uma visão para descobrir aquilo que será o complemento perfeito para a nossa casa. Algumas pessoas gostam de brinquedos antigos, ou complementos para a cozinha. Eu gosto de procurar arte. Por vezes enocntram-se verdadeiras preciosidades dentro de molduras pavorosas. Ah, e já agora,  não desanimem por causa das molduras bonitas. Muitas vezes,  o vendedor pede mais dinheiro pela moldura do que pelo quadro, por isso muitas vezes pergunto se é possivel vendê-lo em separado.

S@H: Quando é que lixo é, simplesmente, lixo?

MRC: Digo muitas vezes às pessoas que sejam cuidadosas no respeita á compra de candeeiros ou qualquer tipo de dispositivo eléctrico. Há demasiadas coisas que podem correr mal. Com os estofos das cadeiras, é preciso ser especialmente cuidadoso. Se as molas e os tecidos tiverem de ser substituídos, aquilo que foi uma pechincha pode tornar-se bastante caro. Se realmente gostar dela, deve comprar. Caso contrário, poderá não valer tanto dinheiro.

Mais por menos

Como tirar partido de uma ida às lojas de 2ª mão?

Mary Randolph Carter partilha 4 dicas.

1. Estar preparado. Pensar de antemão.  Fazer uma lista de modo a manter em foco o que se procura e não oprimido por toda aquela confusão. Neste caso, a lista serve de bússula.

2. Confiar nos seus instintos. Lixo “bom” está associado a boas memórias. Se der consigo a dizer algo como  ‘Sabes o que é que isto me lembra?”‘ provavelmente descobriu algo inetressante.

3. Dar uma volta pelo estabelecimento e, mentalmente, tomar nota dos itens que lhe realmente lhe interessam e daqueles que pode dispensar.

4. Regatear. Faz parte do desporto. Normalmente, junto uma quantidade de coisas. Só quando chega a altura de pagar é que começo a negociar.

uma outra entrevista com Mary R. Carter interview aqui.