chá

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Category: chá na literatura

quebrar qualquer sugestão de monotonia

imperfect impermanent incomplete“no aposento do chá, o temor da repetição é presença constante. os diversos objetos de decoração devem ser selecionados de modo a que nenhuma cor ou desenho seja repetido. se você tem uma flor viva no aposento, uma pintura de flores não é admissível. se você usa uma chaleira redonda, o jarro de água deve ser angular. uma xícara preta brilhante não deve ser associada a uma caixa de chá de laca preta. ao posicionar um vaso […] devemos ter o cuidado de não colocá-lo exatamente no centro para evitar a divisão do espaço em duas partes iguais. aqui, o método japonês de decoração difere mais uma vez do ocidental, no qual vemos objetos simetricamente dispostos sobre consolas de lareiras e em toda a parte. […] a simplicidade do aposento do chá e a sua insubordinação à vulgaridade transformam-no num verdadeiro refúgio contra as vicissitudes do mundo externo. “

– kakuzo okakura in “o livro do chá”, 1906

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o limpo, o belo e o natural

dead hydrangea

“do teto ao chão, tudo tem tonalidade sóbria; os próprios convidados escolheram cuidadosamente roupas de cor discreta. a brandura das coisas envelhecidas está em tudo e tudo o que sugere aquisição recente foi banido exceto por uma única nota contrastante: a concha de bambu e o guardanapo de linho, ambos imaculadamente brancos e novos. embora os aposentos e os apetrechos do chá possam parecer descorados, tudo está absolutamente limpo. nem um grão de pó será encontrado no canto mais escuro pois, caso isso aconteça, o anfitrião não será um mestre do chá. um dos primeiros requisitos de um mestre é o conhecimento de como varrer, limpar e lavar, pois existe uma arte no limpar e no tirar o pó. uma peça de metal antiga não deve ser atacada com o zelo inescrupuloso de uma dona de casa holandesa. a água que goteja de um vaso de flores não precisa ser enxugada, pois pode sugerir orvalho ou frescor.”

– kakuzo okakura in “o livro do chá”, 1906

chá na literatura

“Leni era a única interrupção benfazeja aquando destas visitas; arranjava sempre maneira de levar o chá ao advogado na presença de K. Depois ficava de pé atrás de K., fingindo observar o advogado, que, debruçado com uma espécie de avidez por cima da chávena, despejava o chá e o bebia, enquanto ela deixava K. pegar-lhe na mão às escondidas. Reinava o silêncio total. O advogado bebia, K. apertava a mão de Leni, e Leni aventurava-se por vezes a acariciar suavemente os cabelos de K.

– Ainda estás aí? – perguntava o advogado depois de ter acabado.

– Queria levar a chávena – dizia Leni; havia ainda uma derradeira pressão da mão, o advogado limpava a boca e recomeçava a arengar K. com novo vigor.”

– franz kafka, o processo

chá na literatura

“Estávamos dentro de um balão de ar quente […]. Sobrevoávamos as terras de Lácio. Metzger cofiou o bigode enquanto bebíamos chá, as nuvens cruzando-se ao nosso lado como algodão doce. Depois ajustou a cartola e disse:

«Meu caro, o mundo é nosso.»
«Dificilmente», respondi. […]
«Pelo menos aqui em cima é nosso», insistiu Metzger. «Temos o nosso chá, temos o nosso lastro, temos o céu todo por nossa conta.»
«E quando pousarmos?»
«Não pousaremos.» […]
«Este balão é daqueles que apenas sobe.»”

– joão tordo, o bom inverno

chá na literatura

“So, upon awakening, I pad into my kitchen and push the button on a Japanese hot pot to boil water while I spoon cut tea leaves into a little metal brewing ball. I drop the ball into my cup, fill it with boiling, wait a few minutes for it to steep, and my tea is ready o drink. Fast, efficient, easy to clean.

Why I’m so attached to my teapots?”

– donald a. norman in “emotional design”

chá na literatura

“A mulher sentava-se ali, sempre à mesma mesa, entre as nove horas da manhã e o meio dia. Pedia torradas, chá preto e um pouco de mel. Saboreava as torradas lentamente. Adoçava o chá com duas colheres de mel, e depois deixava-se ficar, longos minutos, contemplando pela vidraça o alegre espectáculo dos jacarandás em flor. Finalmente, tirava da bolsa uma esferográfica e um caderno de capa cor-de-rosa e punha-se a escrever. O que me chamou a atenção foi o facto de ela nunca olhar para o caderno enquanto escrevia.”

-josé eduardo agualusa, passageiros em trânsito

chá na literatura

“Num canto mais escuro a prima Angélica não levanta a cabeça de sobre a meia. Tanta inveja ruminou que desaprendeu de falar. Chega o chá, toma o chá, e apega-se logo à mesma meia, a que mãos caridosas todos os dias desfazem as malhas, para que ela, mal se erga, recomece a tarefa. […] Passou um minuto ou um século?”

– raul brandão,  húmus, 1917

chá na literatura

«- Vais tomar chá, não vais, Dorian? E tu também, Harry? Ou será que te opões a prazeres tão simples?

– Eu adoro prazeres simples – respondeu Lord Henry. – São o último refúgio das pessoas complexas

– oscar wilde in o retrato de dorian gray