chá

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Category: Emotions

fim. princípio

2015 fica, para mim, como um ano de trabalho. demasiado trabalho. trabalho que me roubou tempo, energia e humor para além do razoável. trabalho que tomou o lugar de coisas (e pessoas!) que deviam ter sido mais importantes. o meu desejo, para 2016, é recuperar o equilíbrio. um ano feliz para todos!fim de ano

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como dizer adeus?

avôHerdei-lhe a inconstância, a insatisfação e o mau feitio. Devia ser mais como o meu avô Zé e estar sempre de bem com a vida, a sorrir, a encolher os ombros e deixar para lá. Mas não sou Zé, sou António. Corre-me nas veias a impetuosidade.
Passaram duas semanas e continuo sem saber como lhe dizer adeus. Penso em tudo o que fez por mim e como me apoiou em todos os momentos. Recordo as nossas conversas (era velho mas não pensava como um velho)… Penso no cruzeiro no Douro que lhe prometi e nunca chegaremos a fazer… Custa-me que tenha partido sem ver a sua casa habitada outra vez… E lamento nunca lhe ter dito o quanto o amava.
Ofende-me que pessoas bem próximas de mim não se tenham dado ao trabalho de uma palavra, de uma mensagem, de um telefonema. Porventura a morte de um velho é menos trágica?
Em cerca de três meses perdi uma avó e um avô. Dos meus quatro avós, restam-me agora memórias: as vozes, os sorrisos, as mãos, o que aprendi com cada um deles… E um orgulho imenso de os ter tido como avós. Todos eles.

kámu 26.09.2013kámu 26.09.2013
fotografia: pedro martins

abrir as gavetas da memória

abril de 1989: a minha avó, feliz, entre mim e um dos meus tios. (nunca foi de grandes manifestações mas reconheço-lhe a expressão). encontro a fotografia por acaso e começo a lembrar-me, com uma nitidez inesperada, dos detalhes da viagem: sítios onde fomos, conversas que tivemos, coisas que comemos. a minha avó mimava-me sempre mas quando tomava conta de mim, sem os meus pais estarem, mimava-me ainda mais.

de repente, surge-me uma avalanche de memórias desta avó antes da doença lhe ter roubado a identidade: a tirar croissants quentes do forno, a comprar-me uma fatia de pizza na rua, a levar-me ao parque infantil, as pernas bem torneadas nos saltos de cunha, os vestidos que duravam anos, as compotas com pedaços de fruta generosos, a bola de berlim com que me entrava pela porta dentro todos os sábados e até o gato minou que chegou de frança com trela e acabou os dias a correr livre pelos campos.

junho de 2010: provavelmente uma das últimas vezes que se sentou connosco à mesa. a partir daí o declínio foi vertiginoso. com o tempo, acabei por me habituar a vê-la acamada e alheia à realidade e cada vez é mais difícil lembrar-me dela com a genica, o mau feitio e a imensa generosidade que lhe conheci.

considerada “limitada” por muitos (e, de facto, não teve o benefício da instrução escolar ou sequer de uma estrutura familiar adequada) e com uma personalidade aparentemente (e só aparentemente) apagada, como mãe e avó era uma leoa. defendia, protegia e providenciava.  devo-lhe muito.

esta semana perguntei-lhe: “gostas de mim?”
e num momento raro, teve a lucidez de responder e, com dificuldade, disse: “eu gosto!”
“eu também gosto muito de ti” – respondi-lhe.

– 9 de janeiro de 2013

avó. 1989avó. 2010

mais uma razão para eu gostar do josé luís peixoto

“sou agora capaz de compreender que, quando morre um cão, há uma tristeza específica. é fina e espeta-se no pensamento. aleija só de imaginar. deriva da pena de não termos sido capazes de estar à altura da pureza, da generosidade absoluta.”

– josé luís peixoto, visão, 20.fev.2013

está tudo bem

faz agora dois anos que, de um dia para o outro, um diagnóstico nos tirou o chão debaixo dos pés. depois vieram as consultas, os exames e as cirurgias. pelo meio, a esperança, o medo, o alívio e a angústia sucederam-se numa sequência mais ou menos aleatória. mas mantiveste a serenidade e recusaste-te a fazer espetáculo da tua dor. quando se chegaram a colocar os piores cenários foste tu, sabe-se lá com que custo, quem nos animou e fez rir.

uma noite, a mais triste de todas (mas também a que recordo com maior ternura), senti-nos tão próximos que soube que viesse o que viesse, seríamos capazes de enfrentá-lo juntos. acho que sentiste o mesmo porque me confidenciaste que continuavas a querer que tivéssemos um filho. mesmo que tudo corresse mal. sobretudo se tudo corresse mal.

mas não correu e um dia ouvimos do médico as únicas palavras que queríamos ouvir: “está curado, teve muita sorte”. assim tem sido, temos tido muita sorte. um dia por ano vamos certificar-nos que continua tudo bem. ontem foi o dia e está tudo bem. mais um ano em que está tudo bem. que vivas muitos, meu amor.

i’ll not speak of sadness of having lost a companion

[…]
with those eyes so much purer than mine,
he’d keep on gazing at me
with a look that reserved for me alone
all his sweet and shaggy life,
always near me, never troubling me,
and asking nothing.

[…]
joyful, joyful, joyful,
as only dogs know how to be happy

[…]
now he’s gone
[…]

– pablo neruda

semana 2 de 52

as imagens mais fortes da semana passada, registei-as com a retina e infelizmente não consigo tirá-las da cabeça. são dos últimos momentos do doggynho. sei que com o tempo vou esquecer essas imagens e ficarão só as memórias boas. também sei que um dia esta saudade vai deixar de doer. mas para já,continuo triste.

***

o doggy tinha o péssimo hábito de, quando se zangava (era raro), morder as portas. tantas vezes olhei para a porta da cozinha e pensei: “preciso de mandar arranjar isto!”. mas hoje, ao limpar a porta, passei os dedos pelas marcas dos dentinhos e decidi que é assim mesmo que vai ficar. quero lembrar-me.doggy's bite marks

doggy [02/2000 – 13/01/2013]

gostava de escrever um texto lindo sobre o doggy, tão meiguinho, tão doce, tão nosso amigo, mas tenho o coração demasiado apertado. continuo à espera de o ver vir ao meu encontro aos saltinhos quando entro em casa e às vezes ainda acho que ele está a dormir sossegado em frente à lareira. estou sempre a imaginá-lo a pedir comida com as patinhas da frente e a brincar e a rosnar com a ração antes de comer. e ainda nos oiço a uivar todos juntos até os vizinhos terem a certeza que somos doidos varridos. mais que tudo, sinto falta daquele abraço fofo e quente.

quando a doença se manifestou era tarde demais e, em dois dias, tomou conta dele. depois de um dia de internamento, quando deixou de haver esperança e a dor se tornou demasiada , decidimos que era hora de dizer adeus. pedimos que lhe tirassem o soro, levámo-lo ao colo à rua uma última vez e despedimo-nos. demos-lhe um último abraço e um último beijo e outro e outro e outro. e depois fizemos-lhe festinhas enquanto o punham a dormir. aconchegámo-lo num cestinho com a manta dele e sepultámo-lo no jardim da casa onde vamos viver e onde ficará perto de nós.

viveu uma vida cheia e plena, foi muitíssimo mimado e acarinhado e retribuiu em dobro como só os cães sabem fazer. foi o melhor amigo do dono e o dono foi melhor amigo dele. marcou as nossas vidas para sempre e deixa uma saudade enorme.

não podemos nem queremos esquecer-te, pequenino.♥doggyday 16: sunglassesdoggy @ the beach15.07.20121600IMGP8650doggy caminhadaIMGP4222IMGP4229IMGP4157doggydoggy [02.2000-13.01.2013]doggyhappy sundaydoggydoggy [02.2000-13.01.2013]doggypawdoggy [02.2000-13.01.2013]chegar a casa

adeus 2012. olá 2013

e assim dissemos adeus a 2012. depois de passar a tarde a trabalhar no nosso primeiro grande projeto para 2013 – mudar de casa – jantámos em família (cães incluídos, já se sabe), de pijama e chinelos, cansados mas satisfeitos com o trabalho realizado. passámos a meia noite na varanda a ver a cidade mergulhada no silêncio e os fogos de artifício ao longe, nas aldeias em redor. não brindámos, não comemos passas nem pedimos desejos. eu já tenho tudo o que sempre desejei.goodbye 2012goodbye 2012goodbye 2012doggy & scott new year's evework in progress